20071019

el bosco

A minha amiga Mariana perguntou-me porque é que gosto deste quadro de Bosch. Prometi-lhe um desenvolvimento e aqui vai ele, mesmo que coxo. Apoio-me num livro de Rose-Marie e Rainer Hagen, What great paintings say, editado pela Taschen.
A cena é confusa, um monte de gente em actividades distintas rodeando um carro de feno. Este desloca-se da nossa esquerda para a direita. De um lado, imiscuídos na turba, temos três figuras a cavalo: o papa, o imperador e o príncipe. No outro vemos diabretes e criaturas grotescas que têm corpos híbridos - animais tomados pelo demónio? Estas figuras sinistras puxam o carro e com ele a multidão, que se acotovela numa ganância furiosa. Alguns, vítimas do seu próprio ímpeto, ficam dilacerados entre o veículo e o solo. Falar de deslocação implica falar de tempo; tempo que se encaminha, inelutavelmente, para o Juízo Final. Esta gente peca e segue o destino dos pobres diabos que puxam o carro, o da condenação. Os que parecem alheados da marcha do carro (do tempo) dedicam-se a acções pouco virtuosas: um monge robusto bebe, uma cigana lê a sina, um homem rouba crianças. Mas Bosch não se fica por aqui na acutilância da crítica. Além de denunciar a plebe aponta o dedo aos três poderosos: também eles seguem o mesmo caminho, contemplando apaticamente a situação.
No topo do feno temos um casal beijando-se, um voyeur misterioso, um trio de músicos cuja harmonia é quebrada por um diabrete. Toda esta desordem terrena provoca um distanciamento em relação ao céu. A única figura virada para Jesus é um anjo que, de resto, nem sequer pertence a este mundo.
Uma das coisas que mais aprecio em Bosch, aqui conhecido por El Bosco, é o testemunho que nos deixa do fim de uma época.

1 comentário:

Anónimo disse...

O proto-surrealista :)
s.